Academiæ

"Me disseram que pensar era ingênuo, e daí? Nossa geração não quer pensar. Pois que pense, a que há de vir."

Quadrinhos, Hérois e Filosofia


Desde muito novo sou fã de histórias em quadrinhos, tendo investido muitas tardes lendo, relendo, desenhando e filosofando sobre qualquer chama que me inspirasse qualquer uma das obras que eu lia. Embora eu não seja o tipo clássico de fã, que coleciona revistas, bonecos e freqüenta todos os eventos – em razão das limitações financeiras – eu incorporei o gosto pelas artes gráficas, que é um de meus hobbies preferidos, e a leitura do mundo como uma aventura heróica, na qual o nosso propósito de vida é salvar o mundo. As questões éticas e existenciais do mundo dos super-heróis me guiam tanto que é a partir destes conceitos que penso meus estudos acadêmicos,  e agora, também, minhas artes. Como disse sabiamente Tio Ben, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades“, e se somos brilhantes, talentosos, fortes, corajosos, saudáveis, criativos ou poéticos, devemos direcionar nossas potencialidades para fins heróicos, e não meramente para sobrevivência, passatempo ou diversão.
Mas como fazer uma arte que não é mero divertimento? Este questionamento tem cerca de um século de existência e ainda não se chegou onde queria. Tivemos várias experiências de artes engajadas, como a propart soviética, o construtivismo soviético, o teatro brechtiano, o teatro do oprimido, teatro de guerrilha, e outros. Todo movimento estético tem uma proposta de impacto na sociedade – contudo, nem todos inspiram à ação heróica ou revolucionária, a exemplo da arte abstrata que inspira a mera contemplação e abstração sem fundamento e afasta as classes populares do saber artístico.
Como ação heróica e revolucionária, eu quero dizer toda ação que transforme as condições concretas de existência de indivíduos ou comunidades de forma a construir uma sociedade justa, igualitária, pacífica e livre, empoderando indivíduos e comunidades e inspirando valores de paz e justiça. Não chamo simplesmente de ação heróica, pois poderia perder o caráter de transformação social, e ficar relegado a um mero salvacionismo – e também não é simpelsmente ação revolucionária, pois não se trata de combater o macropoder e transformar a estrutura política como fim último, mas sim transformar a vida das pessoas próximas, prescindindo do macropoder.
Como alcançar este tipo de transformação através das artes gráficas, principalmente os quadrinhos? Tradicionalmente, os quadrinhos são produtos mercadológicos inseridos na cultura de massas, e atualmente difundem as duas culturas capitalistas mais poderosas do mundo – EUA e Japão. Sua cultura então é uma cultura das classes de poder aquisitvo elevedo, uma cultura do consumo e uma cultura de massa. Será possível que, mesmo com essas configurações estruturais, as histórias em quadrinhos inspirem a conduta heróica?
Matt Morris e Gelson Weschenfelder sustentam que sim, e a minha experiência pessoal sugere isso também. Contudo, quero por este discurso em dúvida. Em Teatro do Oprimido e Poéticas Públicas, Augusto Boal traça uma evolução histórica da estrtuura do teatro, desde o teatro acatártico aristotélico, direcionado para a expressão emocional e alívio da tensão, passando pelo teatro dialético brechtiano, de fundamento marxista, voltado para a conscientização do homem da era científica, até à crítica feita por Boal a esses teatros como teatros do espetáculo, a à sua proposta de um tearto para ação, um teatro como ensaio para a ação revolucionária. Eu me pergunta em qual destas classificações o mangá ou a HQ se enquadrariam. Será que os quadrinhso realmente fornecem ferramentas para a revolução, ou estão relegados a um papel puramente emocional ou de entretenimento? Considerando a semelhança do uso da fantasia nos mangás e nas histórias fantásticas épicas medievais, que transportam o espectador para um outro mundo, com uma estrutura social totalmente diferente e sem menção às formas de opressão atuais, e o comportamento passivo e apático de grande parte dos cidadãos, mais engajados no consumo e na cultura dos ídolos do que na transformação mental, estou inclinado a entender que os quadrinhos, por alguma razão que ainda não compreendo, não estão estimulando os jovens ao heroísmo, senão inibindo-os e relegando-os a um papel de observador.
Por outro lado, ser super-herói é um sonho de vida comum entre os fãs de quadrinhos, ainda na infância. Porém, é mais fácil encontrar um fã apaixonado pelo Naruto do que alguém que sustente o sonho de se tornar super-herói na idade adulta. O que acontece nesse meio tempo que acaba com o sonho? Talvez exista uma cultura reacionária, que tem mais poder sobre os adultos, que incentive-os à conformidade e renegue o passado heroicamente inspirado desses indivíduos, que acabam por se submeter em função de necessidades mais básicas, como sustento ou inserção social.
Então, precisa ser criada uma cultura dos quadrinhos forte o suficiente para reagir à conformidade social. Ela precisa mostrar como é possível manter o sonho de ser super-herói, e como concretizá-lo no mundo real. Ela precisa ter um caráter pedagógico de exposição da conduta heróica e de instrumentalização ética, estratégica e comportamental, que incite diretamente à ação, em vez de meramente à fantasia ou à emoção. Ela precisa abordar so temas filosóficos tão caros às histórias de super-heróis. E, o que parece mais difícil, ela precisa superar o seu caráter classista e de bem de consumo, tornando-se uma arte verdadeiramente engajada.
Precisamos de modelos de conduta, de pessoas que nos inspirem e nos mostrem uma idéia do que é a eudaimonia. Em um mundo secularizado, niilista, envolvido em guerras imperialistas, sem deuses ou santos, surgiu a figura do super-herói como modelo a ser seguido. Eu não acredito que atualmente, em um mundo pisado por Gandhi, Gene Sharp, Paul Watson, Nelson Mandela, Rainha Rania Al-Abdullah, Jane Goodall, Augusto Boal, Paulo Freire ou Franco Basaglia, possamos aidna considerar um mundo sem heróis e exemplos a serem seguidos. Mas eu reconheço que é raro que se tenha informações suficientes sobre a vida e a ação dessas pessoas para se inspirar, e que as histórias em quadrinhso são um meio muito potente de divulgação dessas condutas e valores, de forma bastante humana e sensível, e não meramente através de uma interpretação pelo materialismo histórico.

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