Academiæ

"Me disseram que pensar era ingênuo, e daí? Nossa geração não quer pensar. Pois que pense, a que há de vir."

V de Vingança uma Análise de Idéias

• A revista norte-americana Time questionou: “É possível para um grande estúdio de Hollywood fazer um filme de U$ 50 milhões no qual o herói é um terrorista? Um terrorista que aparece usando um colete de dinamite de um homem-bomba, que adota como lema, debaixo de uma máscara de madeira que ele nunca tira, que ‘explodir um prédio pode mudar o mundo’?”.

O filme se baseia nos quadrinhos V de Vingança (V for Vendetta, no original) de Alan Moore e David Lloyd publicados em Agosto de 1988 (mês e ano em que eu nasci ^^). Baseado em sua insatisfação diante das adaptações de seus outros trabalhos, como Constantine, Liga Extraordinária e Do Inferno, Alan Moore reprovou a realização do filme antes mesmo das filmagens. David Lloyd, por sua vez, colaborou com a produção e deu declarações afirmando que o filme seria, obrigatoriamente, algo diferente da história em quadrinhos original ( e é, poderão ler alguns destaques que separei para comparação). Mas, mesmo com a reprovação de Moore e com alterações na história que serão sentidas por alguns fãs, o filme mantém o que há de essencial e subversivo dos quadrinhos (a Ideia).

Com um roteiro dos famosos irmãos Wachowski, da trilogia Matrix e Piratas do Caribe, e dirigido pelo iniciante James Mcteigue, (que também trabalhou em Matrix), V de Vingança é um blockbuster hollywoodiano que teve grandes platéias e um efeito intelectual muito bom. Quem interpreta V é Hugo Weaving, que atuou em Matrix, na pele do Agente Smith. O surpreendente é que a indústria do cinema não conseguiu impedir que o filme fosse uma ácida crítica a George Bush e Tony Blair, nem que tivesse como herói um mascarado explodindo prédios públicos, um herói que é um “vilão”.

O personagem principal, que quer ser chamado apenas pelo codinome V, não tira sua máscara nem para fritar um ovo! O filme se passa numa Inglaterra de 2020 (aproximadamente). Se a HQ dá a entender de que se instaurou uma ditadura empresarial-militar fascista decorrente de um golpe de estado (situação ainda muito presente no início dos anos 1980, década em que foi escrita), no filme, o grupo chega ao poder através de eleições, o que já demonstra a incorporação da democracia formal pela burguesia no século XXI. Que tem à frente um governo totalitário, eleito com o discurso de que a população deve abrir mão de seus direitos e liberdades para que o Estado a “proteja” da ameaça terrorista.

V planeja explodir o prédio do Parlamento no dia 5 de novembro. A data se refere à história de Guy Fawkes, um soldado inglês, católico, que, num ato contra o governo protestante da época, pretendia destruir o prédio do Parlamento britânico que ficou conhecido como a Conspiração da Pólvora. Ele foi preso em 5 de novembro de 1605 e enforcado alguns meses depois. A noite de 5 de novembro é lembrada até hoje na Inglaterra com fogos, fogueiras e com a queima de bonecos de Guy Fawkes, algo como a malhação de Judas (não importa a religião, a época ou o país, alguém sempre vai para na focar ou na fogueira rsrs).

Dos quadrinhos para as telonas
Os fãs dos quadrinhos notarão muitas diferenças entre a graphic novel e o filme. Tais diferenças, entretanto, não desagradaram a maioria, pois o resultado é um grande filme, que preserva o melhor da história e acrescenta aspectos importantes, inexistentes no papel. Além disso, a versão cinematográfica “corrigiu” alguns aspectos e salientou outros da trama (como deixar de lado as traições de uma das mulheres de um dos membros do partido).

A maioria das supressões são justificadas pelo tempo de duração da história, mais ainda assim é incrível que eles tinham conseguido resumir bem a historias de um herói em um único filme. Nos quadrinhos, a história é bastante complexa e dura vários anos, algo complicado de se transpor para o cinema. Isso foi determinante para o filme não poder mostrar a lenta transformação da personagem Evey dos quadrinhos, que no início era uma garota assustada de 16 anos que se prostituía e depois se torna a corajosa parceira de V. Nas telas, Evey (Natalie Portman, de Free Zone e Closer) já surge como uma mulher decidida e questionadora. É uma jovem bem instruída, amante das artes, porém assustada e temerosa. Seus pais foram executados pelas forças policiais por serem ativistas políticos que protestavam contra a ascensão do grupo fascista ao poder e ainda por cima, trabalha no canal BTN, a TV estatal rigidamente comandada pelo governo. Ela é salva por V após quase ser estuprada pelos Homens-Dedo (policiais). Seu personagem passa por uma verdadeira metamorfose no decorrer da película. Se no início do filme, mostrava-se servil e obediente ao sistema (apesar da plena consciência da tirania no poder) e às normas legais, depois passa a compreender os propósitos de V, forjando assim, não uma consciência de classe, mas uma consciência de luta contra a opressão da sociedade. Outro aspecto incorporado por Evey em decorrência de sua convivência com V é a ausência de uma identidade própria. Liberta de seus medos e fraquezas, Evey consegue sobreviver na Londres caótica sem se deixar reconhecer (e talvez sem reconhecer a mesma Evey).

O detetive Finch (Stephen Rea, de Entrevista Com o Vampiro) dos quadrinhos é muito mais perturbado, menos decidido, que seu correspondente na adaptação. O filme também não mostra que sua compreensão sobre V aparece durante uma visão que teve em Larkhill (um tipo de campo de concentração para onde eram levados os excluídos da nova sociedade, o que incluía minorias étnicas, sexuais, imigrantes e ativistas políticos), durante uma viagem com LSD. Outra diferença é que, nos quadrinhos, o personagem V é puro ódio contra aqueles que lhe torturaram, manipularam suas propriedades psíquicas e fisiológicas, e esse desejo de vingança, o combustível para suas ações “terroristas”, fazendo assim a sua justiça pessoal, já que a justiça legalmente constituída não pertenceria mais aos cidadãos, mas à classe dominante, ele faz discursos a favor da anarquia e da ausência de líderes como esse trecho em que ele se encontra com a estátua da justiça do Old Bailey

“V – “Eu a admirava, apesar da distância (personificada pela estátua no alto do Old Bailey). Ainda criança, passando pela rua, eu admirava sua beleza”. Porém, naquele contexto a Justiça não passava de uma meretriz que flertava com os homens de uniforme. Quando “perguntado” pela estátua sobre quem tomou o seu lugar, ele responde que “seu nome é anarquia […] com ela, aprendi que não há sentido na justiça sem liberdade” (p.43)

O que desaparece no filme, na telona, representa o fiel cumpridor de ordens do chanceler em assuntos investigativos da polícia. Também membro do Partido, ele acredita que sua missão em prol da sociedade é manter a ordem e a unidade através do trabalho na polícia. Honesto, ele leva seu trabalho a sério em seus princípios e quando as sucessivas revelações escusas sobre membros do Partido são trazidas à tona em suas investigações, começa a se questionar sobre quais interesses realmente representa.

Esteticamente o filme é grandioso. Aproveita o contraste de luz e sombra dos desenhos de Lloyd, que compunham um ambiente depressivo para a sociedade totalitária do futuro. O filme acrescenta a esse clima imagens mais impactantes. A escuridão é explorada em todo o seu mistério. E a máscara de V, diante das diferentes cenas e luminosidades, possui uma expressividade sem igual, a face de um “inimigo” sorridente.

Indivíduo e coletivo
V é um personagem singular, cativante, expressivo, criativo e teatral. Tais características são tão suas quanto seus planos de transformação social e sua participação nesse processo. Como os super-heróis da Marvel, ele usa máscaras e usa um codinome em sua missão de salvar o mundo. No entanto, há uma grande diferença entre V e Batman ou Super-homem, muito além do método de atentados.

Neste ponto o filme “supera” os quadrinhos. O V das grandes telas defende a necessidade (e não é somente um detalhe) da ação das massas nas transformações. V pretende explodir prédios, mas também incitar o povo a se rebelar contra o governo tirano. Segundo ele, explodir um prédio como o Parlamento é algo simbólico, mas um símbolo não vale nada se não tiver o povo na rua. Mesmo que sua principal tática seja essa, por diversas vezes V mostra que a ação isolada é insuficiente. Assim, o atentado proposto por V se diferencia, por exemplo, dos atentados do 11 de setembro de 2001. Mesmo acertando um importante símbolo do imperialismo, a morte de milhares de pessoas, entre elas muitos imigrantes, não levou a uma mobilização dos trabalhadores e deu mais fôlego a Bush e Blair.

E, apesar de todas as ações serem planejadas por V, não há um heroísmo messiânico. A princípio é uma luta individual, uma vingança com ações planejadas por ele, inclusive com um toque teatral. Entretanto, o individual se quebra, em primeiro lugar, pela máscara e pelo codinome, que escondem até o fim a identidade do personagem. Depois, essa individualidade se dissolve por completo na multiplicação das máscaras na multidão, expressa ainda melhor na fala de V, que, ao ser ameaçado com uma arma, afirma que “você pode matar um homem, mas não um ideal”. E a batalha deixa de ser uma atitude isolada, fruto de uma vingança pessoal, que dá nome ao filme.

Além da liberdade
Há lacunas, frestas. Os fãs mais puristas poderão reclamar das diferenças entre o filme e os quadrinhos. Outros poderão argumentar que os discursos de V mais próximos ao anarquismo foram suprimidos na versão cinematográfica. Uma cena de luta muito ‘matrix’ também era dispensável.

Os problemas da sociedade que são destacados no filme e combatidos pelo personagem principal se resumem à falta de liberdade numa sociedade autoritária. Nem o filme nem os quadrinhos questionam a desigualdade social, se há miséria, desemprego ou fome naquela realidade.

Entretanto, por mais divergências que se possa ter com os métodos da luta isolada ou da guerrilha, com o anarquismo ou a ausência dele, ou com o tom liberal do discurso, V de Vingança faz sua revolução nas telas. Não se muda o mundo explodindo um prédio, mas nenhuma lacuna prejudica a importância de este personagem mascarado estar em cinemas de todo o planeta com falas como “o povo deve temer seu governo. O governo é que deve temer seu povo”.

Comparações HQ e Cenima

O enredo mostra a ascensão, o auge e a queda de um regime totalitário futurista firmado na Inglaterra.

  • Nas histórias em quadrinhos, o nome do ditador deste regime é “Adam James Susan”. Na versão cinematográfica ele foi renomeado para “Adam Sutler”, que em muito se parece com o de Adolf Hitler;
  • No enredo, a bandeira do partido que sustentava o regime totalitário possuía um símbolo com formas geométricas e ângulos retos, tal qual a suástica nazista. Além disto, a bandeira era de cores preta e vermelha, uma inversão das cores utilizadas pelo Partido Nacional Socialista Alemão (Partido Nazista);
  • A história do ditador Sutler é quase igual a de Adolf Hitler, em especial no que tange a sua ascensão junto ao partido e ao governo;
  • Após o Tratado de Versalhes, o regime nazista atribuía a culpa dos problemas da Alemanha aos judeus. Além dos judeus, iniciaram perseguição aos negros, aos ciganos, aos homossexuais e aos deficientes físicos. O regime fictício do enredo atribuía a culpa pelo atentado ocorrido no metrô e na escola aos muçulmanos. Posteriormente, fomentou também a perseguição contra homossexuais.
  • No enredo, o regime de Sutler cria campos de concentração tais quais os da Alemanha nazista;
  • Existe no enredo uma polícia secreta, chamada em português de Dedos (inglês: fingers). No regime nazista havia também uma polícia secreta, a Gestapo;
  • Há uma forte crítica ao clero no enredo, mostrando escândalos de pedofilia, assassinatos, e busca pelo poder. Além do mais, no enredo, há um acobertamento por parte do clero (provavelmente anglicano) às experiências feitas em seres humanos.
  • A fala acentuada de V no filme, provém muito possivelmente do personagem Edmond Dantes, interpretado por Robert Donat, no filme Conde de Monte Cristo, o mesmo que o V assiste.

Saiba mais se quiser:

Para os fãs:

Os HQs escaneados de V de Vingança estão disponíveis em PDF para livre download no 4Shared.

#1 http://www.4shared.com/get/anA8CC8g/Alan_Moore_-_V_de_Vingana__Par.html

#2 http://www.4shared.com/get/08lY445n/Alan_Moore_-_V_de_Vingana__Par.html

#3 http://www.4shared.com/get/l91Yyh61/Alan_Moore_-_V_de_Vingana__Par.html

#4 http://www.4shared.com/get/MC-GGL1x/Alan_Moore_-_V_de_Vingana__Par.html

#5 http://www.4shared.com/get/DeduQAsQ/Alan_Moore_-_V_de_Vingana__Par.html

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2 opiniões sobre “V de Vingança uma Análise de Idéias

  1. Ilmar Júnior em disse:

    Parabéns cara, boa análise, muito bom!
    Gostei!

  2. Michel em disse:

    Boa análise. Um leitor atento consegui notar as escolas filosóficas que estão entrelaçadas a esse discurso.Só não falo mais nada pois não li e nem assisti nada sobre o personagem. Parabéns texto.

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